Sobressalto

Saio da cama com os olhos inda pregados, enxergando o mundo por uma minúscula fresta de luz. Cambaleante, calço os chinelos ainda de meias e, tateando todos os objetos como um cego em local desconhecido, parto para a porta do apartamento. Derrubo quadros, vasos e abajures. Chuto mesas, cadeiras e sofás para, só então, tocar na frígida maçaneta e dar duas voltas no molho de chaves. Uma leve brisa vinha pelo corredor, soprando de alguma janela aberta que dava para aquela fria noite de outono. Pé ante pé escalo andar por andar, um mais difícil que o outro. A luz baça dos sensores de movimento acompanha meu progresso trôpego até o terraço. Porta aberta. O chão molhado de orvalho encharca minhas meias e o vento corta meu rosto tornando ainda mais difícil de acompanhar com os olhos meu caminho. Meus dedos embranquecem quando toco no peitoril, fazendo força para escala-lo. Agora, entre mim e a rua existe apenas vazio, lembranças prestes a serem apagadas e uma coragem que jamais sonhei possuir. Tiro os chinelos. Minhas meias grudam no concreto gelado. Abro os braços. Caio. E caio. E caio. Acordo num sobressalto, pouco antes de tocar o chão. Saio da cama com os olhos inda pregados, enxergando o mundo por uma minúscula fresta de luz. Cambaleante, calço os chinelos ainda de meias e, tateando todos os objetos como um cego em local desconhecido, parto para a porta do apartamento. Derrubo quadros, vasos e abajures. Chuto mesas, cadeiras e sofás para, só então, tocar na frígida maçaneta e dar duas voltas no molho de chaves. Uma leve brisa vinha pelo corredor, soprando de alguma janela aberta que dava para aquela fria noite de outono. Pé ante pé escalo andar por andar, um mais difícil que o outro. A luz baça dos sensores de movimento acompanha meu progresso trôpego até o terraço. Porta aberta. O chão molhado de orvalho encharca minhas meias e o vento corta meu rosto tornando ainda mais difícil de acompanhar com os olhos meu caminho. Meus dedos embranquecem quando toco no peitoril, fazendo força para escala-lo. Agora, entre mim e a rua existe apenas vazio, lembranças prestes a serem apagadas e uma coragem que jamais sonhei possuir. Tiro os chinelos. Minhas meias grudam no concreto gelado. Abro os braços. Caio. E caio. E caio. Acordo num sobressalto, pouco antes de tocar o chão. Saio da cama com os olhos inda pregados, enxergando o mundo por uma minúscula fresta de luz. Cambaleante, calço os chinelos ainda de meias e, tateando todos os objetos como um cego em local desconhecido, parto para a porta do apartamento. Derrubo quadros, vasos e abajures. Chuto mesas, cadeiras e sofás para, só então, tocar na frígida maçaneta e dar duas voltas no molho de chaves. Uma leve brisa vinha pelo corredor, soprando de alguma janela aberta que dava para aquela fria noite de outono. Pé ante pé escalo andar por andar, um mais difícil que o outro. A luz baça dos sensores de movimento acompanha meu progresso trôpego até o terraço. Porta aberta. O chão molhado de orvalho encharca minhas meias e o vento corta meu rosto tornando ainda mais difícil de acompanhar com os olhos meu caminho. Meus dedos embranquecem quando toco no peitoril, fazendo força para escala-lo. Agora, entre mim e a rua existe apenas vazio, lembranças prestes a serem apagadas e uma coragem que jamais sonhei possuir. Tiro os chinelos. Minhas meias grudam no concreto gelado. Abro os braços. Caio. E caio. E caio. Desta vez não acordo.

Sobressalto

Reflexologia – Confraria dos Trouxas

Semana passada teve conto meu publicado lá no blog Confraria dos Trouxas, de onde fui confrade e pude compor alguns dos textos presentes no livro Semelhantemente.

A Confraria é um blog com textos sobre amor baseados em músicas. A música da semana passada foi “Salão de Beleza – Zeca Baleiro“.

Ouça e confira: http://confrariadostrouxas.com.br/2015/01/reflexologia.html

Reflexologia – Confraria dos Trouxas

Mageuzi – A lenda de Mabadiliko

Há muito tempo – muito tempo mesmo -, o caos reinava no universo. Partículas colidiam umas com as outras, infinitamente, enquanto os deuses apenas observavam do alto de seus tronos celestiais de contentamento. Até que um dia, cansado de observar, um jovem deus chamado Mabadiliko ergueu as mãos, tomando para si uma porção do caos.

Com o tempo, aquela porção agitada de nada e escuridão se depositou nas dobras da sua pele, formando algo novo, nunca antes visto pelos outros deuses, nem pelos deuses dos deuses mais antigos. Nas mãos de Mabadiliko nascia a ordem, e, nessa ordem, agora viam-se linhas serpenteantes em suas palmas: as linhas da vida, do coração e do intelecto.

Foi quando os outros deuses estremeceram em seus tronos, enciumados com as novas marcas do jovem deus. Os juízes supremos das regiões mais longínquas do céu, a fim de acalmarem os ânimos das entidades preocupadas com suas posições, deram a Mabadiliko duas opções: apagar as marcas que o tornavam singular ou ser banido para o exílio em uma terra sem forma e vazia.

Mabadiliko, fazendo uso das características depositadas em suas mãos (vida, coração e intelecto), após muito deliberar, escolheu o exílio, pois o renovo que aquela atitude inquieta de tomar partido do caos trouxe para sua existência faria qualquer exílio valer a pena.

Expulso para o exílio, ele vagou sozinho por milênios, até que a solidão o abateu, fazendo Mabadiliko revolucionar-se mais uma vez. De tanto andar, os pés de Mabadiliko mudaram o relevo daquele lugar, criando vales, montanhas e planícies, revelando as entranhas daquela terra, de onde retirou barro e moldou milhares de novos seres com suas próprias mãos. Insetos, flores, frutos e animais. Tudo novo, único e lindo aos olhos dele. Em todas as criações era possível ver as impressões digitais das palmas de suas mãos gravadas no barro.

Entretido com este processo, Mabadiliko passou seus dias, até que em uma explosão de criatividade criou um ser diferente, porém familiar. Olhos, boca, ouvidos, pés, pernas, braços e mãos. Um ser como ele, onde depositou mais tempo do que jamais gastara em outra obra. Detalhe sobre detalhe, curvas, expressões, fendas e arestas. Marcas. Até as marcas de suas mãos, responsáveis pelo exílio, estavam nesta criação. Finalmente, perfeição.

Emocionado com tudo o que havia criado, Mabadiliko chorou, e com a água que verteu de seus olhos, lavou as mãos, que ficaram completamente encharcadas. Agitou-as sobre suas criações, aspergiu sobre elas mais do que apenas água. Algo acabava de mudar. As linhas em suas palmas foram parcialmente apagadas e, junto com a água, jogadas sobre suas criações. Vida, intelecto e capacidade de amar foram derramadas sobre os seres de barro que logo se espalharam por toda a superfície da existência. Mabadiliko não estava mais só.

Compadecidos e impressionados com ele, os deuses clamaram aos juízes que o trouxessem de volta aos céus. Foi o que fizeram. Mabadiliko subiu nas costas de uma águia e partiu, deixando os seres seguirem suas vidas na terra onde o jovem deus fez sua revolução.

Desde então, sempre que Mabadiliko olha para baixo e se emociona, lava as mãos nas próprias lágrimas, faz chover na terra e a vida se renova.

Mageuzi – A lenda de Mabadiliko