Das coisas da vida de um cara como eu (5/11)

A SENHA DO CLUBE DO SÉRGIO

No dia seguinte, percebi que estava perdido.

Não literalmente. Perdido no sentido espiritual da coisa. Não espiritualmente como ir para o inferno. Estou falando sobre estado de espírito.

Sei lá no que pensar… Se devo odiá-la ou ama-la, me odiar ou me amar, me odiar por ama-la, ou me amar por conseguir amar sem ser amado.  Foi com este tipo de conflito que iniciei meu dia.

Na condução sempre tem alguém que coloca música alta no celular. Geralmente é algum funk sexual, cheio de palavrões e coisas impronunciáveis, mas desta vez o DJ resolveu inovar, indo do pagode ao sertanejo. Foi aí que me dei conta de que não estava bem, pois todas as letras fizeram sentido. Como será que esses compositores conseguiram captar exatamente o que eu estava sentindo? Tanto sofrimento. Tanta dor rimando com amor. Por um segundo achei maravilhoso não estar sozinho no universo dos amantes não correspondidos. Depois me peguei cantarolando uma das músicas e achei melhor colocar meus fones de ouvido pelo resto do caminho.

Já na faculdade, fui para a sala como se nada tivesse acontecido, afinal, eu precisava me dar algum valor. Minha mãe sempre diz que o primeiro amor deve ser o próprio.

Desta vez subi pelas escadas de olho nos meus cadarços que, miraculosamente, estavam amarrados. No 3º andar, escutei meu antigo nome seguido de um alerta.

— Ei, garoto! Vê se não vai cair, hein.

Riram.

Era um grupo grande de pessoas que estava descendo de elevador. A porta se abriu exatamente enquanto eu passava e eles não perderam a chance de uma chacota gratuita, dada assim, de bandeja.

— Calma aê, galera!

Uma voz meio abafada tentava abrir caminho para a liberdade aos trancos e barrancos, saindo do meio dos outros. Nunca vi uma placa de lotação máxima ser respeitada.

Já estava chegando no 4º andar e mais uma vez fui alvo de piada.

— Olha o cadarço!

Olhei para baixo sem mover a cabeça e constatei: eles tentavam me enganar! Lá estavam, ambos, completamente desamarrados. Permaneceram atados apenas para que pensasse ser seguro subir pelas escadas, depois me derrubariam de forma maestral. Me virei para ver quem tirava onde da minha cara desta vez, e era Ana.

— Tá com pressa? — ofegante, devido à saída do elevador, Ana secava pequenas gotículas de suor com a manga da blusa.
— Nem, mas obrigado pelo alerta do… — sem esperar que eu terminasse de agradecê-la, foi logo falando.
— Hoje eu trouxe uma caneta de mapa! — sorriu um sorriso contente. Estava feliz com alguma coisa. Talvez em me ver, por que não?! Respirei fundo, esbocei um sorriso e…
— Ah, é? — e mais nada. As palavras simplesmente sumiram.

Chegando à porta da sala de aula, me puxou e começou a escrever algo com a caneta de mapa, bem perto da menina da bundinha em coração, obra do último encontro. O traço era fino e bem escuro. Um, dois, três, quatro traços formavam uma letra “E” maiúscula. Um sinuoso “S” um pouco à frente e, enquanto outro traço nascia alguém gritou o nome dela. De bate-pronto, Ana parou o que fazia e exclamou que estava indo. E foi, mas não antes de me dar um beijo no rosto. Nosso primeiro beijo!

E… S… teria alguma relação com o estado do Espírito Santo? Acho que não. Seria a sigla para alguma Escola Superior? Uma frase me chacoteando? O início de um poema? Seu endereço? Uma receita de bolo? ETERNAMENTE SUA?! Talvez…

Me senti vitorioso, pisando na cabeça da serpente caída! E realmente estava. Meu cadarço continuava desamarrado.

— Que gesso mais gay, Marcos! — Foi desta maneira que fui recebido pelo porteiro do prédio naquela quarta-feira. Eu bem sabia que aceitar os desenhos da Ana seria como assinar um atestado de gesso mais gay do planeta.
— Quê isso, Seu Sérgio… É coisa das minhas amigas!
— Aí sim, hein! — Seu bigode era parecido com o do professor, só não era grisalho. Na verdade era bem mais escuro que seus cabelos acajú, os quais não cobriam, mas enfeitavam sua cabeça, tipo aqueles modelos das caixas de tintura para homens. Quase um desenho animado, só que bem mal ilustrado.
— Cê viu… — me virei para continuar caminhando, mas sem sucesso. Nunca consigo terminar uma conversa! Não sei por que pensei que conseguiria desta vez.
— Pois é, meu filho. Tem que ter muita muié ao redor mêmo… Senão, depois cê fica véio feito eu e não consegue mais nada.
— Té parece, Seu Sérgio… Você tem cara de pegador! — por que será que eu fui brincar? Me diz!
— Opa… Não vem com essas coisas pra cima de mim não. Nada contra suas opção, aí. Eu sô viúvo e tô muito bem no time que escolhi.

Achei melhor me calar e apressar o passo. Foi assim que encerramos aquele agradável diálogo: eu tendo certeza de que o gesso estava afeminado demais para o meu gosto, e o Seu Sérgio achando que eu era afeminado, cheio de amigas, pronto para agarrar o primeiro viuvão que desse bola.

“ES.”

Confira o capítulo 6 – Tinha Porco na Ceia

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