Poker com Deus – A dama de copas (4/11)

— Será que o Senhor pode parar com isso, por favor?

— Hum… — Deus estava mastigando um punhado dos seus tão requisitados pistaches, fazendo um tremendo barulho —, quer que eu pare de comer pistaches? Posso comer de boca fechada se este for o caso. Só que parte da diversão em comer este tipo de coisa está no som produzido. É sério. Fui EU que fiz assim!

— Não — aparentando-se transtornado, Agnaldo permanecia de cabeça baixa e olhos fechados, segurando firmemente seus cabelos como se sua cabeça pudesse sair correndo a qualquer momento —, quis dizer isso tudo. Quero que este jogo acabe! Quero sair desta mesa o mais rápido possível! Por favor, deixe-me sair deste sonho maluco.

Agnaldo acordou em sua casa, numa manhã de setembro nublada. Tão nublada quanto seus sonhos da noite anterior. Tão nublada quanto seu futuro após ter largado a faculdade pela metade. Era o primeiro dia em casa depois de ter confessado sua desistência ao seu pai, o “Dr.” Cesar, como era conhecido. Obviamente houve tumulto com a declaração do filho, porém seu pai deixou claro que as coisas deveriam mudar, uma vez que era ele quem arcava com todos os custos dos estudos de Agnaldo, que não eram baratos. Mal sabia ele que seu filho já não entregava o dinheiro para a faculdade há alguns bons meses. Tudo era vertido em fichas e bebidas nas mesas de poker que passou a frequentar depois de ter perdido os verdadeiros amigos para aquele romance desastroso. Nestas mesas as amizades eram passageiras e não chegavam a durar até a saideira. “Uma ‘cerva’ fácil”, diziam eles pelas costas de Agnaldo. Talvez ele até soubesse, mas precisava daqueles desconhecidos. Tanto precisava que resolveu se calar, não mais se mostrando aquele idealista filosofo intransigente que seus verdadeiros amigos aturavam.

Ao descer as escadas para tomar um café preguiçoso encontrou seu pai sentado na cozinha, lendo a sessão de economia em um jornal parcialmente amarrotado pela entrega. Sem levantar exercer praticamente nenhum movimento, seu pai solicitou com uma calma profissional que ele retornasse ao seu quarto para se vestir pois naquela manhã ele começaria a trabalhar imediatamente em um dos departamentos da empresa que ele presidia. Tratava-se de uma distribuidora e o departamento em questão era a logística. Não em um cargo estratégico, mas como auxiliar de escritório. A rotina exaustiva secretamente imposta pelo pai manteve Agnaldo ocupado em suas tarefas durante algumas semanas. Tornou-se cada vez mais difícil comparecer nas habituais mesas de poker com os mesmos desconhecidos de sempre, pois sempre havia serviço para ser feito e se não havia logo inventavam um. Porém, como sua vida acabou transferida para o escritório os vícios também acabaram por vir. Agnaldo reparou desde o primeiro dia que, após as 18h, a equipe de responsáveis pelos carregamentos parava tudo e lanchava enquanto jogava truco. Daí para bom e velho poker não demorou muito. Após se convidar para as primeiras partidas de truco e demonstrar uma grande habilidade com as cartas acabou comentando sobre sua verdadeira paixão com o chefe da equipe, um sujeito grandalhão, com grandes bigodes felpudos que galgou seu caminho até a chefia “devorando” seus superiores. Seu nome era Rubens, o braço direito de seu pai, há muito conhecido por Agnaldo devido as conversas com o pai em raros momentos de descontração. Rubens, sabendo da filiação do companheiro, porém sem saber das determinações do Dr. Cesar, resolveu apresentar o então garoto para seus amigos pessoais de carteado. As sessões aconteciam aos finais de semana na garagem da casa de Rubens, regadas a amendoim salgado e cerveja barata. Pela porta dos fundos os mais variados tipos de pessoas entravam carregando fardos de dinheiro, e saiam levando consigo apenas o ar dos pulmões. E, quando mais dinheiro Agnaldo ganhava, mais dinheiro Agnaldo apostava, e mais inimigos Agnaldo acumulava. A “febre” dele chegou a tal ponto que ele passou a organizar jogos de madrugada e durante a semana. Rubens não pôde ir contra, uma vez que também fez dívidas com o rapaz e viu no “aluguel” da garagem uma chance quitar a dívida.

No primeiro mês tudo correu bem. O silêncio e a discrição imperavam ao ponto da esposa de Rubens jamais ter acordado. Contudo, no mês seguinte a coisa deslanchou. Gritos, roncar de motores, cantar de pneus, lixo espalhado por todos os lados. Uma verdadeira calamidade que curiosamente não foi descoberta pela dona da casa, mas por sua filha.

Agnaldo desandou no emprego e chegava cada vez mais cedo para armar a mesa improvisada na garagem de Rubens. Certo dia chegou tão cedo que acabou atraindo os olhares de Luana que acompanhava a movimentação na rua pela janela do quarto. A jovem o seguiu com os olhos até a lateral da casa. Assustada correu até a porta da frente e, circulando a casa, deu de cara com Agnaldo, que carregava um pack de cervejas com uma mão e com a outra abria a porta da garagem. Antes do grito acusador Agnaldo conseguiu explicar para Luana que era amigo do seu pai, e que estava ali apenas para fazer um favor. “Certo, mas só acreditarei em você com uma condição”, foi o que disse a garota antes de roubar uma garrafa de cerveja, abri-la e toma-la praticamente de um só gole. Sem fazer questão de entender o rapaz entrou na garagem, deixou parte das cervejas e saiu novamente carregando duas garrafas, dizendo que poderia voltar outra hora para cumprir o favor prometido a Rubens. Vestida com um pijama curto de flanela, segurando de mão cheia uma garrafa de cerveja, Luana fez com que a cabeça de Agnaldo girasse. Lendo os sinais, ele a convidou para uma volta. Naquela noite não houve poker e paz reinou novamente naquela garagem.

Escondendo-se pelos cantos da empresa, o rapaz recém apaixonado passou a fugir de Rubens de todas as maneiras possíveis, imaginando que ele pudesse saber do romance secreto com sua filha. Fugia mais por medo do tamanho de Rubens do que por temer qualquer tipo de represália. O grande homem devia para Agnaldo, muito dinheiro, e isso não mudaria, independente de Luana.

“Abra essa porta”, Rubens chamava do lado de fora do escritório da administração. Vestindo seu melhor traje de blefe abriu a porta e deu de cara com ele. Aparentava estar muito maior, vermelho de raiva e com o cenho franzido. Pela mesma janela que Luana descobriu o rapaz que perambulava seu jardim a mulher de Rubens viu o casal que se esfregava dentro de um Passat cinza. O mesmo Passat cinza ganhado na mesa de poker por Agnaldo pouco antes da aquisição da dívida que fez com que Rubens alugasse sua garagem.

— Então quer dizer que o senhorzinho está ciscando no meu galinheiro?

— Não sei do que você está falando, Rubens.

— Quer saber? Não me importo. Fique com Luana, mas esqueça minha garagem — numa cartada improvável Rubens tentou desestabilizar Agnaldo, apostando a única coisa que realmente importaria para ele.

— Se você quer jogar — Agnaldo fingiu voltar à rotina de papeis da distribuidora —, saiba que eu tenho em minhas mãos o poder de colocar e tirar qualquer carta do baralho do meu pai. Entendeu? Mas tudo bem. O poker acabou por aqui. Só não se esqueça que temos uma dívida para acertar e sua filha joga ao meu lado.

Rubens se calou e deu meia volta perante tamanha frieza do homem calculista que aos seus olhos nascia naquele instante.

Ocupando-se com seu relacionamento, Agnaldo manteve distância das mesas de poker, mas o incentivo de Luana o levou ainda mais fundo para a farra. A falsa timidez, o semblante profundo e indecifrável, o corpo de jovem mulher e a vitória sobre seu pai a tornavam na droga mais forte já provada por ele.

Passaram-se dois anos sem que um baralho tocasse suas mãos, mas todas as noites antes de dormir Agnaldo repassava as jogadas mais incríveis de sua carreira e, de certa forma, resistiu à abstinência com placebos, até o dia que Rubens foi mandado embora da empresa sem justa causa a mando do Dr. Cesar, que dizia ter havido um grande declínio na produtividade dele nos últimos dois anos.

O cerco se fechou para Agnaldo que morava sozinho com Luana depois de um casamento celebrado às pressas sem o consentimento de nenhum dos dois lados da família. Rubens fez tocaia durante vários dias, até que conseguiu o que queria. Num beco próximo ao apartamento do casal, portando uma arma prateada, Rubens o abordou com tamanho furor que apenas sua presença repentina foi capaz de derrubar Agnaldo no chão. Caído em meio aos sacos de lixo Agnaldo era um ser indefeso, urinando-se de medo. Apesar do tamanho, Rubens não teve coragem de terminar com aquilo do jeito que havia planejado.

— Você e eu, amanhã, resolveremos da mesma maneira que tudo  isso começou.

— Mas Rubens, tudo isso o que? Não tive culpa de sua demissão. Juro por Deus!

— E desde quando você acredita em Deus, seu larápio de merda? Quero você naquela maldita mesa de poker, mas desta vez vou jogar pela minha honra e não por uns trocados.

— Não tenho nada para apostar!

— Simplesmente apareça.

Rubens saiu derrubando tudo que estava ao seu alcance naquele beco, deixando Agnaldo ali, feito um moribundo. Ele poderia muito bem ter se levanto e sumido do mapa, ou pedido ao seu pai a readmissão do homenzarrão. Inclusive, estas coisas passaram pela cabeça dele, porém na noite seguinte Agnaldo batia na porta de Rubens, que o esperava com sua família e 36 dentes amarelos. Amarelos como os tremoços que subiam correndo pelo braço de Deus quando Agnaldo se viu novamente em meio à fumaça de incenso.

— Ué. Pensei que você quisesse sair, meu filho. O que o traz novamente à minha presença? — Deus ria por dentro, chacoalhando levemente o diafragma fazendo com que tudo vibrasse.

— Pois voltei. Se o Senhor me conhecesse saberia que não abandono um desafio.

— Tanto sei que estamos aqui. Só que existem momentos onde é melhor recolher as fichas, levantar-se da mesa e dar-se por satisfeito, o que não é seu caso. Feeling é outro aspecto de um bom jogador de poker, e isso Agnaldo, você não teve.

— Pode ser — seu tom de voz transformou-se numa mescla de tristeza e arrependimento.

— Puxa vida! O que temos aqui? Aceita uma cervejinha para ajudar a engolir esse ego?

E mais uma vez tudo vibrou ao ritmo das risadas de Deus.

Índice da série:

  1. O céu de Agnaldo;
  2. O flop inicial;
  3. Um pot bem maior;
  4. A dama de copas;
  5. O filho e o fold;
  6. Rei dos reis;
  7. Blinds, mas nem tanto;
  8. O pai do pai do blefe;
  9. Pares;
  10. All in;
  11. Do rack ao rack.

3 thoughts on “Poker com Deus – A dama de copas (4/11)

  1. Muitas coisas, Felipe. Primeiro: ‘retornasse’, mas você já sabe. Esse retorno à vida terrena do Agnaldo, que agora no quarto capítulo se confunde entre passado e presente, é um ótimo caminho (não sei se é esta a tua intenção) pra ir contando a vida do protagonista. Vendo o que ele poderia ‘consertar’, digamos. Embora tenha bastante fala do narrador, este texto tá bem próximo de um roteiro de filme, principalmente certos filmes americanos que começam meio assim, meio assado, sem muita pretensão e vão aumentando o interesse no ‘telespecleitor’. A caracterização do personagem, com sua compulsão pelo jogo, o vaivém do vício (deixar e não deixar o jogo), a indolência pelo sofrimento dos outros, seu alheamento no mundo, são aspectos que de uma forma ou outra, acredito, causam identificação em quem lê (a mim pelo menos causou). Até porque esse Agnaldo não é um cara mau ou propositamente sem caráter. Ele tem, sim, algo de fauna noturna dos grandes centros urbanos, um misto da solidão e marginalidade. O pôquer apenas serve para ilustrá-lo e desenhá-lo. Acho que o texto pode crescer, como tem crescido, tanto em tamanho como em informações de conteúdo. Já vi propostas simples se transformarem em livros e prêmios. Você tem um senso de observação bastante apurado e que não deve ser perdido. E mais: tem a vantagem de poder ilustrar a tua própria história. Como aparecerá esse Deus, hein? E outra: será que a história do Agnaldo interferirá no domínios da história celestial, já que a própria não está terminada?
    Boa sorte.