Poker com Deus – All in (10/11)

Muitas coisas aconteceram nas milhares de partidas que Agnaldo havia jogado antes de se prometer abstinência do carteado. Conheceu muitas pessoas, entre boas e ruins. Movido por um instinto até então desconhecido por ele, resolveu recorrer a uma das pessoas ruins que conhecia. Ela morava no meio do caminho entre seu apartamento e a casa de Rubens, por isso não perdeu tempo.

— Puxa, você? O que quer?

— Preciso de um favor — sem tirar as mãos dos bolsos e os olhos da soleira Agnaldo esperava que aquela conversa não se prolongasse para não atrasar ao compromisso daquela noite.

— Humm — o sujeito olhou para a rua averiguando se ali havia alguém os observando, mas tudo que viu o o Passat mal estacionado em sua porta — e tá cuidado bem do meu carro?

— O carro não é mais seu desde que o ganhei no carteado. Não vim aqui conversar, preciso de um favor, e rápido.

— Tá, desembucha logo o que você precisa.

— Uma arma.

A chuva não dava trégua e naquele momento um trovão brilhou no céu, rangendo e estalando enquanto abraçava o escuro da noite. O sujeito entrou rapidamente, fechando a porta na cara de Agnaldo, que não se moveu um centímetro sequer. Cinco segundo depois eis que a porta se abre novamente, e desta vez o sujeito carregava nas mãos um saco de pão muito amassado. Agnaldo estava totalmente empapado pela chuva e o sujeito totalmente empapado pelo suor que lhe escorria testa abaixo.

— É o seguinte, Agnaldo. Eu não posso te emprestar, mas nós podemos fazer negócio.

— Não tenho muito dinheiro aqui. Te pago depois.

— E quem disse que eu quero dinheiro?

Agnaldo tomou o saco de pão nas mãos e entregou as chaves do velho Passat ao seu antigo dono que não escondia a satisfação em ter novamente seu carro depois de dois anos andando a pé.

— Só queria saber — Agnaldo virou-se para trás antes de alcançar a rua e perguntou —, se eu estou carregando um 38 dentro deste saco de pão.

— É. Mas como você sabe?

Sem responder Agnaldo tomou o caminho novamente para a casa de Rubens que ficava a 10 minutos dali. Era como se ele estivesse completamente desligado do corpo. A chuva não o incomodava mesmo tendo encharcado os sapatos e embaçado os óculos. Ia caminhando sabendo que não se atrasaria, no seu ritmo, no seu tempo. Não pensava em nada do que havia ficado para trás. Solange, Davi, o Passat, suas promessas. Sabia que iria jogar e isso lhe bastava naquele momento. Estava trêmulo de ansiedade, seus dedos formigavam numa espécie de êxtase por saber que logo mais entrariam em contato com suas 52 amantes, se abrindo em leque, se revelando aos poucos frente aos seus olhos famintos e febris num striptease silencioso.

Chegando em frente à casa de Rubens muitas lembranças vieram à tona. Foi como se seus cinco sentidos religassem ao mesmo tempo, num curto-circuito que impedia que ele pensasse claramente nas coisas. Mas isso não o impediria de seguir adiante com o jogo da sua vida.

Antes de tocar a campainha removeu a pistola calibre 38 prateada do invólucro de papel e a acomodou em suas costas presa pelo cinto. Rubens e sua família aguardavam pela visita, mas houve tempo para Agnaldo entrar pela porta da frente. Rubens, com seu grande sorriso amarelo, agarrou-se ao braço de Agnaldo e o encaminhou para a garagem, sua velha conhecida de outros tempos.

Tudo lá permanecia como antes. A mesma mesa improvisada, garrafas e latinhas de cerveja perdidas aqui e ali, além do baralho meticulosamente limpo e arrumado, como se ele fosse o único “ser vivo” naquela catacumba. A verdade é que Rubens estava ansioso e passou a noite cortando, embaralhando, distribuindo e recolhendo as cartas freneticamente, enquanto calculava suas opções para a partida com Agnaldo. Ele sabia que seu adversário era bom com as cartas e por isso não poderia dar brechas para uma nova derrota. Sentaram-se, um de cada lado da mesa, olharam-se e começaram a jogar sem pronunciar uma única palavra.

As apostas começaram pequenas. Mão após mão Agnaldo foi vencendo e Rubens nitidamente se tornava cada vez mais vermelho e vermelho. Tudo incomodava Agnaldo naquele momento; as roupas encharcadas, a água lhe escorrendo na testa e, acima de tudo, o cano gelado do revólver em suas costas. Estas distrações foram suficientes para que Rubens virasse o jogo e começasse as partidas seguintes. A vermelhidão de seu rosto agora dava lugar a um sorriso tímido que se vangloriava pela retomada das rédeas da situação. O que ele não poderia esperar era o atrevimento de Agnaldo que, cansado daquela situação, resolveu dar all in. Não confiando na jogada de Agnaldo, Rubens resolveu pagar para ver no que aquilo iria dar, mas quando as cartas começaram a abrir ficou evidente sua derrota. Agnaldo recolheu seus valores e começava a se levantar quando foi interrompido por Rubens.

— Se você quer colocar tudo em jogo seja homem e vamos até o fim.

Dito isso colocou sobre a mesa a arma prateada com a qual havia ameaçado Agnaldo na noite anterior. O recado havia sido entregue. Era óbvio que o aconteceria se ele não aceitasse esta derradeira aposta desesperada. Sentando-se jogaram apenas mais uma vez, e mais uma vez Agnaldo venceu. O som da chuva sobre o telhado de zinco era ensurdecedor. Rubens se colocou de pé e pegou a arma do centro da mesa num movimento que assustou Agnaldo. Ele não esperou para saber o que aconteceria. Levantou-se rapidamente, tomou a arma que estava presa no seu cinto e houve um grande estampido, e outro, e outro.

Agnaldo mais uma vez se encontrava naquela sala infinitamente branca na presença de Deus e do Diabo. Contudo uma forte dor em seu peito diferenciava esta das outras vezes. Já não tinha mais tantas fichas para apostar e resolveu abandonar aquela partida tendo em mãos um 3 e um 8, ambos vermelhos.

Índice da série:

  1. O céu de Agnaldo;
  2. O flop inicial;
  3. Um pot bem maior;
  4. A dama de copas;
  5. O filho e o fold;
  6. Rei dos reis;
  7. Blinds, mas nem tanto;
  8. O pai do pai do blefe;
  9. Pares;
  10. All in;
  11. Do rack ao rack.