Uma questão de refração

Sempre gostei de me sentar naqueles assentos mais altos dos ônibus. Às vezes até acreditava ser algum tipo de infantilidade da minha parte este costume, já que o carrego desde pequeno, pois sempre fui obrigado a pegar condução para ir para a escola primária.
Certo dia, voltando para casa após uma extressante jornada de trabalho, tomei o velho ônibus e como era de se esperar sentei-me em meu lugar favorito. Até aí nada fora do habitual, a não ser pela cena que estava para se desenrolar. Em pontos diferentes tomaram o ônibus uma moça loira, que se sentou na segunda fileira logo após a catraca, um rapaz alto e bem magro que não chegou a cruzá-la, permanecendo de pé próximo ao banco reservado aos idosos, e um segundo rapaz, que ultrapassou a roleta e sentou-se na fileira atrás da moça. Como disse, eles entraram em paradas diferentes, espaçadas o suficiente para que nenhum deles se tocasse antes de alcançar seus lugares.
A moça era muito bonita, loira, muito bem vestida e carregada de livros escolares. Por meio do reflexo do vidro que separa a condução em pagantes e não pagantes era possível, dependendo da qualidade da luz que vinha do exterior, que eu visse o rosto dela e, por sua vez, ela era capaz de enxergar o resto da condução como num espelho retrovisor, e era exatamente isso que ela estava fazendo. Com os olhos atarantados era nítido que ela esboçava sorrisos para o rapaz que sentou-se atrás dela. Ele por sua vez não era lá um Don Juan, mas tinha seu carisma, só que estava absorto com o movimento da rua e não dava a mínima para os esforços dela. Em compensação, e por um acaso da refração do vidro, o moço que ficou na parte da frente do ônibus acreditava piamente que as investidas dela eram em direção a ele. Ele não estava errado. Errado estava o ponto de vista. Esse rapaz era feio, assim mesmo, sem rodeios. Tinha o cabelo nos ombros, um ar de pseudo-comunista e barba por fazer (lembrando que barba por fazer e pseudo-comunistas é uma grande redundância). Em todo caso, ele resolveu ser recíproco com a moça, mandando piscadelas e sorrisinhos. Ela não o viu. Quem o enxergou foi o rapaz sentado atrás dela, e, para minha completa surpresa, ele iniciou um flerte com o rapaz depois do vidro.
Permaneceram assim durante toda a viagem. Ela olhava o de trás, que olhava o da frente, que olhava para ela. O ônibus sacodia muito, havia som de conversas misturados aos celulares que tocavam e os barulhos comuns de um dia de trânsito. A distração era tamanha que dificilmente mais alguém teve a oportunidade de se deliciar com essa confusão. Cruzaram os olhares uma última vez e desceram, cada um em seu ponto, sem imaginar que amaram-se mutuamente e nem ao menos puderam se ver.

Uma questão de refração