Maria do céu

sob a luz da lua, sob a luz da rua, sob a carne crua, sob a cara pintada, sob a saia rasgada, sob a colcha manchada, sob corpos sujos, sob fortes jugos, mas menina, acima de tudo.

Podosofia II

Poesia é como um calçado que não laceia, cujo poeta teimoso insiste em calçar. Crescemos e ela continua lá, do mesmo tamanho. Diferentemente dos nossos pés, que crescem, engordam, incham e já não conseguem se acomodar. Com isso a poesia incomoda. Cria bolhas, fissuras, calos. Poesia dói nos pés e não se deixa esquecer. Mas […]

Raios Opostos

caia a noite de branco Lua cheia de mim se vai colhendo estrelas esvai-se a deixar nascer menor o Sol que pauta só o céu semeando arranjos poentes, laranjas e negrumes salpicos de sal na mesa celeste onde copos de leite são derramados nas vias de um recomeço

Cuspa

O sussurro que grita aos ouvidos, beirando a loucura do silêncio inaudível a olhos nus, deixa-se cair no torpor amargo e lancinante da carne que geme e se desdobra, parindo verdades para dentro e à frente de qualquer entendimento.

Agridoce

Iludo-me ao pensar que um dia ei de provar teus lábios sendo meus. Mesmo que fossem, ainda não o seriam, já que beijas a mim sendo outro, que não eu. Segue a morder-me por dentro, molha-me por completo em suor e lágrimas. Amarga assim o gosto que imagino frutuoso de uma boca entreaberta entre nós. […]