Podosofia II

Poesia é como um calçado que não laceia, cujo poeta teimoso insiste em calçar. Crescemos e ela continua lá, do mesmo tamanho. Diferentemente dos nossos pés, que crescem, engordam, incham e já não conseguem se acomodar. Com isso a poesia incomoda. Cria bolhas, fissuras, calos. Poesia dói nos pés e não se deixa esquecer. Mas o poeta teimoso a usa até gastar, até perder completamente o couro e a sola. Só então seus pés cansados conhecem o chão.

Podosofia II

Raios Opostos

caia a noite de branco Lua

cheia de mim se vai colhendo estrelas

esvai-se a deixar nascer menor

o Sol que pauta só o céu semeando arranjos

poentes, laranjas e negrumes

salpicos de sal na mesa celeste

onde copos de leite são derramados

nas vias de um recomeço

Raios Opostos

Agridoce

Iludo-me ao pensar que um dia ei de provar teus lábios sendo meus.

Mesmo que fossem, ainda não o seriam, já que beijas a mim sendo outro, que não eu.

Segue a morder-me por dentro, molha-me por completo em suor e lágrimas.

Amarga assim o gosto que imagino frutuoso de uma boca entreaberta entre nós.

Vá e beije àquele aquém da tua saliva, pois sigo a beijá-la outra.

Sendo minha sem ser você. Sendo eu sem ser ninguém.

Agridoce