Que tal levar uns Tapas da Verdade? — Fernando Ramos

Há muito que não venho até aqui para fazer a resenha de um livro. Aliás, meu ritmo de leitura caiu muito, porque não tenho andado de transporte público com tanta frequência. Na época da faculdade eu passava cerca de 5 horas dentro de ônibus e metrôs, entre idas e vindas de casa para o serviço, serviço para faculdade, faculdade para casa, e, durante o trajeto, devorava livros com a fome de quem passou pela infância e adolescência carente de “vitaminas”.

Neste período fértil em leituras, além de resenhar alguns livros por aqui, acabei tomando gosto pela arte literária. Escrevi contos, crônicas, pequenos romances, poemas e outras pequenices pelo Twitter. E, no meio de tantas coisas escritas por aí, lancei meu primeiro livro de contos, intitulado Semelhantemente. Mas não vim até aqui para resenhar meu próprio livro, pois essa atitude soaria um tanto quanto egocêntrica.

Entrei nesse assunto apenas para justificar um escambo literário que realizei com o amigo e também autor de contos, Fernando Ramos. Assim que meu livro ficou pronto, ele foi um dos primeiros que se interessou em lê-lo, mesmo morando bem longe de São Paulo, onde realizei o lançamento. Como eu também tinha grande interesse me conferir sua obra, realizamos uma troca interestadual de livros e, após alguns dias de trato feito, eis que chega em minha casa um exemplar de Tapas da Verdade, autografado e dedicado, fazendo com que ele fosse ainda mais único.

Iniciada a leitura, logo percebi certa semelhança – e juro que isso não é um gancho para o nome do meu livro – com minha forma de fazer literatura. Talvez pelas referências ou quem sabe pelo público, como fica bem claro no livro, a Rede Social. Tapas da Verdade não é apenas um livro de contos contemporâneos. Estamos falando de contos que nasceram aos olhos de uma geração frenética por conteúdo e ávida por qualidade, porém preguiçosa e de pouquíssimos scrolls. E assim, com velocidade e simplicidade invejáveis, nascem textos ricos e situacionais, cheios de dicas sobre os olhares e ideias do autor — fato que me atrai em uma boa leitura.

Ainda sobre olhares e ideias, na minha humilde opinião, Tapas da Verdade é um livro sobre musas. Martinho da Vila que se cuide, pois Fernando Ramos expôs viéses femininos extremamente abrangentes sem que em momento algum a aura feminista fosse deixada de lado. Definitivamente, um livro para mulheres lerem cheias de orgulho por serem o que são, e um verdadeiro “tapa da verdade” em homens que acreditam na possibilidade de um dia compreenderem a alma de uma mulher.

Que tal levar uns Tapas da Verdade? — Fernando Ramos

O Livreiro de Cabul – Åsne Seierstad

Intenso e revoltante, “O livreiro de Cabul” é uma narrativa desenvolvida pela jornalista noroeguesa Åsne Seierstad, correspondente na guerra do Afeganistão logo após a queda do regime Talibã, sobre a vida de uma família Afegã tradicional, que a acolheu e revelou suas nuances.
Não se trata de uma trama completa, lembrando um pouco o estilo pulp de literatura. Este livro relata certos acontecimentos que apenas uma pessoa neutra em plena zona de “guerra familiar” poderia relatar. Por se tratar de uma mulher estrangeira, Åsne teve a permissão de trafegar livremente entre dois mundos completamente diferentes: dos homens e das mulheres.
Recomendo este livro devido seu conteúdo histórico que elucida em detalhes a cultura daquele povo, desmistificando, inclusive, pontos de extrema delicadeza, como o terrorismo, Deus e relacionamentos.

Na semana que vem, publicarei aqui no Nâo Me Faz Pensar um conto inspirado nesta história. Espero por vocês!

O Livreiro de Cabul – Åsne Seierstad

Bala na agulha – Marcelo Rubens Paiva

Lembrando muito o estilo narrativo de romances policiais, Bala na agulha é uma crônica que narra em grande estilo um curto período na vida de Flávio Castilho, filho de um aclamado político brasileiro, que se envolve em uma trama de vícios, sexo, poder, familia e dinheiro.
Flávio, traficante e prostituto, em busca de uma guinada em sua vida, conhece Mona para mais um “programa”, como era de costume. Porém, esta mulher misteriosa acaba se tornando a algoz de um desenrolar surpreendente.

Semelhante a “Blecaute”, outro livro do autor já comentado por aqui antes, porém menos apocalíptico, Bala na agulha acontece de forma a se apoiar em todo o universo ao seu redor. O protagonista deste livro é influenciado por um mundo político fantasioso (mas nem tanto), que acaba determinando, minuto após minuto, cada um dos acontecimentos em sua vida.

Sinceramente, este é um livro de leitura simples, sem grandes sacadas, mas que me prendeu do início ao fim.

Fica a dica!

Bala na agulha – Marcelo Rubens Paiva

O Natimorto – Lourenço Mutarelli

Intrigante. Foi assim que consegui definir o livro “O Natimorto”, de Lourenço Mutarelli (autor dos romances “A Arte de Produzir Efeito Sem Causa”, “Jesus Kid”,  “Miguel e os Demônios”, além do conhecido “O cheiro do ralo”, que virou filme dirigido por Heitor Dhalia e estrelado por Selton Mello, e outros gêneros como peças teatrais e quadrinhos).

Editado de maneira poética, quase construtivista, Mutarelli traça paralelos interessantes entre simbolos do cotidiano e significados esotéricos, o que deixa o leitor preso na trama e nos personagens sem nomes, figurados pelo Agente e pela Voz.

Não posso ir muito além desta breve descrição, senão contaria o livro inteiro e todo o enlace da narrativa seria desfeito. Fica então a dica para os que gostam de livros que, ao mesmo tempo que deixam muitas dúvidas, deixam também milhões de respostas para cada uma delas.

O Natimorto – Lourenço Mutarelli

Todos os Nomes – José Saramago

Imagine um prédios descomunal, onde são registrados com letra de mão todos os nomes, sobrenomes e datas dos vivos ou mortos do mundo todo. Saramago imaginou, e registrou em um livro intitulado “Todos os Nomes”.

O que me motivou a ler este livro foi exatamente o nome. O autor tem a peculiaridade de não dar nomes aos bois, logo pensei que talvez este livro fosse a explicação de seu estilo. Me enganei. Sr. José é o único nome tangível em todo o livro, mas José poderia ser qualquer um.

Uma outra característica marcante da bibliografia do autor (levando em conta tudo que já li dele até agora) é a romantização apocalíptica das coisas. Este livro não foge à regra. O protagonista desta obra trabalha na Conservadoria Geral do Registro Civil, onde tudo de todos é registrado e acaba por viver um romance imaginário com um dos nomes que o destino lhe entregou em mãos.

Dizer que é um livro denso seria redundante se lembrarmos que o autor é Saramago. Mas, alheio a isto, vale muito a pena lê-lo e recomendo para qualquer pessoa que queira vivenciar a singela vida de um homem, que vive escondido atrás de todos os nomes.

Todos os Nomes – José Saramago

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

Imaginem um livro onde o fim está na capa. “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é um bom exemplo. Sim, o protagonista morre, mas morre bem antes de começar o livro, há exatamente 160 capítulos depois do prefácio.

Machado de Assis encarna um “malandro cultural” chamado Brás Cubas; um homem de muitas idéias e poucas realizações (traduzindo: frustrado). Culto, não mede esforços para se gabar, já que em seu estado pós morten não tem porque se apegar a repressões do seu próprio ego, fazendo o leitor se perder com tantas idas e vindas nas enciclopédias.

Aos pequenos goles, o livro trata de assuntos filosóficos interessantes como religião, vida e morte, com boas sacadas do autor e citações geniais, a exemplo da frase “o homem tem uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o absolutamente”, extraída de Blaise Pascal, filósofo francês do século XVI.

Não foi o melhor livro que já li, mas algumas lições podem ser extraídas de seu contexto.

Fica aí a dica!

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis

O Cordeiro – Christopher Moore


Simplesmente o livro mais engraçado que já li. “O Cordeiro” traz à tona um dos assuntos mais controversos da história mundia: a infância de Cristo.
Com muito humor, drama, tragédia, emoção e kung fu, Biff (o chapa, brother, camarada, parceirão e amigaço de J.C.) conta como foi sua infância ao lado da maior personalidade de todos os tempos, Jesus S. Cristo, ou Josué para os mais chegados.

Biff é o lado negro da força, porém para o bem. Ele é quem trapaceia, mente, luta e faz de tudo para que o “Filho da mãe” consiga sobreviver em meio aos Gregos, Romanos e Gentis.

Christopher Moore fez uma grande pesquisa a respeito da infância de Jesus, baseando-se nos evangelhos, cultura budista, indú, lendas e sua cabeça “doente”. Ele procura deixar bem claro que esta obra não foi escrita para que as pessoas repensem sua opção religiosa, e tampouco para degradar a imagem deste grande homem chamado Jesus. Muito pelo contrário. Por meio desta leitura é possível abrir um pouco mais os olhos quanto ao preconceito que existe dentro da cultura cristã em relação às outras e ainda se interessar em conhecer os evangelhos originais.

Vale muito a pena passear com Biff e Josué pelas mais de 500 páginas de “O Cordeiro”. Um livro que tem tudo para se tornar best seller.


O Cordeiro – Christopher Moore